O documento assinado por 158 entidades também tenta evitar o fim de todas as secretarias especiais

Agência Áfricas de Notícias – por Claudia Alexandre

959633-seppir_2 Uma carta pedindo que seja mantido o status de ministério da  SEPPIR – Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial foi enviado à presidente Dilma na semana passada. Com 158 assinaturas representando os movimentos social, sindical, feminista, juvenil e negro, o documento que também foi protocolado na Casa Civil, Ministério do Planejamento, Câmara dos Deputados e Senado Federal pede ainda, que a reforma ministerial anunciada pelo governo não atinja nenhuma secretaria especial, incluindo a  da Mulher. O documento tem  assinaturas de personalidades como a cantora e deputada Estadual Leci Brandão;  os rappers Dexter e GOG; e dos professores Hélio Santos e Valter Silvério.

Edson França
Edson França

O protocolo foi realizado no dia 31 de agosto e de acordo com Edson França, representante da UNEGRO, já existem boatos de um impacto positivo sobre esta mobilização. “Vamos verificar a possibilidade de uma agenda com o ministro do Planejamento Nelson Barbosa, ainda que ele não esteja recebendo ninguém para esta pauta”, disse França.

A expectativa é porque ainda não há definição sobre a inevitável reforma ministerial, que tem outras prioridades. Hoje existem 39 ministérios: 13 são do PT e 7, do PMDB, mas outros sete partidos também estão na Esplanada. Além da redução ministerial, ainda estão sendo estudados cortes internos, onde existe uma média de 22 mil cargos comissionados, sendo que seis mil sem concurso público, ou seja, por indicação de políticos. A previsão é  diminuir pelo menos mil destes cargos.

No caso da SEPPIR, criada para cuidar exclusivamente dos interesses da população negra junto ao governo federal, os representantes consideram “equívoco e um retrocesso político uma reforma ministerial que avança sobre os espaços de diálogo com os movimentos sociais”. Na prática eles acreditam que qualquer mudança administrativa,  que distancie da condução administrativa do país,  os segmentos mais vulneráveis como o das mulheres, da população negra, população indígena, jovens e dos LGBTs por exemplo, representará um prejuízo, no pouco que já se pode avançar.

O que se sabe, é que a reforma ministerial pretende transformar em departamento todas as secretarias que hoje possuem status de ministério dentro do governo federal. Estes órgãos seriam concentrados numa Coordenadoria de Direitos Humanos. Uma decisão que contraria as principais lideranças.

Veja na íntegra a carta que repudia as mudanças nas secretarias especiais do governo federal:

 NENHUM DIREITO A MENOS, DEMOCRACIA SE FAZ COM DIÁLOGO E PARTICIPAÇÃO

O Brasil começou a dar seu salto para o futuro com a implementação de uma série de políticas públicas em prol da igualdade, todas elas no contexto mundial das lutas populares e democráticas. Em especial com a realização de diversas Conferências mundiais contra o racismo (Durban em 2001), pela emancipação das mulheres (Pequim,1995), pelos direitos da juventude e pela diversidade sexual, consubstanciados na Convenção Americana de Direitos Humanos, de 1969.

Ratificadas pelo Congresso Nacional, o nosso país se comprometeu a eliminar daí em diante a chaga da desigualdade. Essa opção política nos levou a incluir ações, projetos e políticas públicas que estão no caminho certo para colocar o Brasil num salto civilizatório sem precedentes, cuja novidade é que o Estado tem papel fundamental, e não somente os governos.

Desde a Constituição Cidadã de 1988, que liberdade e igualdade não são valores abstratos, mas parte de um projeto de sociedade, onde a democracia se constrói com diálogo e participação social, em um processo de contínua invenção e reinvenção de direitos.

O Poder Executivo, em especial nos últimos doze anos, tem buscado transformar-se para dar conta das demandas dos povos historicamente excluídos dos espaços de status, prestígio e poder. Deste modo, o atual desenho institucional do Governo Federal, revela o compromisso do Mandato Democrático e Popular com a agenda política dos Movimentos Sociais.

No entanto, conforme chegou ao conhecimento público, o Governo Federal, sob pressão da grande mídia e da onda conservadora que tem ocupado o debate político nacional, pretende fazer uma reforma administrativa, que projetada sem diálogo e participação com as forças progressistas vivas de nosso país, pode se constituir em uma ameaça as conquistas no campo das ações sociais, principalmente, as voltadas para grupos socialmente vulneráveis  – como mulheres, promoção da igualdade racial, LGBT e juventude.

No coração da luta democrática em nosso país, as mulheres já pulsavam, rompendo preconceitos e tabus na luta pela Anistia e na demanda por direitos iguais. Na década de 80 do século passado, criou-se as Delegacias de Mulheres e no ano de 1985 conquistamos o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, fincando raízes para impulsionar ações que resultariam em exemplos para todo o mundo, de instrumentos de defesa dos direitos humanos das mulheres.

Na recém-nascida construção de um governo comprometido com os setores mais sofridos de nossa população, momento histórico em que o país desperta com intensidade para a necessidade das políticas públicas específicas para as mulheres, manifestamos nossa decisão de defender a manutenção desta política. Mobilizamo-nos pela reforma política democrática, pela garantia da prosperidade econômica com a valorização do trabalho, por autonomia e mais poder para as mulheres, negros e jovens e pela conquista de uma mídia democrática e não discriminatória.

Senhora Presidenta Dilma, “nada pra vocês sem vocês”. Não existe bom governo feito de boas intenções, mas aqueles que se constituem promovendo o diálogo e participação social, e nos quais os interlocutores governamentais possui peso institucional, poder de decisão e capacidade para promover a transversalidade das políticas de promoção de igualdade.

A expansão das políticas de ação afirmativa, a retirada do país do mapa da fome, o enfrentamento eficaz da miséria, o reconhecimento das uniões homoafetivas, o crescimento da presença de mulheres e negros no ensino superior e a frente de micro e pequenas empresas, demonstram que o Brasil está no caminho certo de superação da chaga das desigualdades – étnico-raciais, geracionais, sexuais e de gênero.

Senhora Presidenta Dilma, todos nós saímos e sairemos às ruas em defesa da legitimidade do seu Governo, ungido pelo voto de 54 milhões de brasileiros, em defesa da democracia e da vida. Mas entendemos como inaceitável a desmontagem de estruturas administrativas, de controle social e de diálogo entre governo e sociedade, que vem pautando a luta contra toda forma de preconceito e desigualdade, e as duras penas tem conseguido alterar a realidade de milhares de brasileiros e brasileiras, com a redução da pobreza, das diferenças regionais e culturais. Portanto, agora é o momento de continuar, aprimorar a gestão pública para consolidação das iniciativas criadas e de pavimentação da trilha da cidadania.

Por isso, as entidades dos movimentos sociais, cidadãos e cidadãs, intelectuais, artistas e militantes assinam o Manifesto abaixo, contra a alteração do desenho institucional nas Secretarias de Políticas paras as Mulheres, da Promoção da Igualdade Racial, de Direitos Humanos e de Juventude e em defesa do fortalecimento institucional desses órgãos, pois queremos que o Brasil dê um salto para o futuro, eliminado de vez a chaga dos preconceitos, do racismo, do sexismo e das desigualdades sociais e regionais.

Assinam:

  1. Abaça Ogum de Ronda / SE
  2. AFROUNEB – Núcleo Interdisciplinar de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros / UNEB – Santo Antonio
  3. Agentes de Pastoral Negros – APN´S
  4. Alteritas: diferença, arte e educação / MG
  5. Articulação de Mulheres de Asé IYagba / RN
  6. Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras de São Paulo – APSMNSP
  7. Associação Afro Cultural de Matriz Africana São Jerônimo /BA
  8. Associação Afro religiosa e Cultural Ilê Iyaba Omi – ACIYOMI /PA
  9. Associação Brasileira de Pesquisadores Negros – ABPN
  10. Associação das Comunidades Negras Rurais Quilombola do Maranhão – ACONERUQ
  11. Associação Cultural Afro-brasileira de Oxaguiã / PA
  12. Associação de Defesa Ambiental COROPOS / RJ
  13. Associação de Educadores da USP – AEUSP
  14. Associação de Mulheres Negras Aqualtune / RJ
  15. Associação de Mulheres Negras Chica da Silva / MG
  16. Associação de Mulheres ODUM-AMO / SP
  17. Associação Nacional das Baianas de Acarajé / BA
  18. Associação dos Pesquisadores Negros da Bahia
  19. Associação Pró Moradia e Educação dos Empregados e Aposentados dos Correios – AME
  20. Associação de Sambistas e Comunidades de Terreiro de Samba do Estado de São Paulo – ASTECSP
  21. Batuque Afro Brasileiro de Nelson da Silva / MG
  22. Bocada Forte Hip Hop / SP
  23. Centro de Cultura Negra do Maranhão – CCN
  24. Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – CEERT / SP
  25. Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afrobrasileira – CENARAB
  26. Centro dos Estudantes  de Santos e Região Metropolitana da Baixada Santista – CES
  27. Centro de Estudos e Referência da Cultura Afro-Brasileira – CERNEGRO / AC
  28. Cia de Teatro é Tudo Cena / RJ
  29. CIR – Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ
  30. Clube de Mães de Ilha de Mare – BA
  31. Coletivo de Empreendedoras Negras Makena / SP
  32. Coletivo de Entidades Negras – CEN
  33. Coletivo de Estudante Negro do Mackenzie – AFROMACK / SP
  34. Coletivo Feminista Baré do Amazonas
  35. Coletivo Hip Hop Feminino Maria Amazonas
  36. Coletivo Mulheres Encrespa de MG
  37. Coletivo Nacional de Juventude Negra – ENEGRECER
  38. Coletivo Quilombação / SP
  39. Comissão de Jornalistas Pela Igualdade Racial – COJIRA/SP
  40. Comissão Nacional dos Pontos de Cultura – GT Gênero
  41. Comitê Impulsor Nacional da Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver
  42. Confederação Nacional das Associações de Moradores – CONAM
  43. Confederação Nacional Quilombola – CONFAQ
  44. Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE
  45. Conselho Estadual de Mulheres de Goiás – CONEM
  46. Cooperativa de Mulheres Flor do Mangue de Salvador / BA
  47. Coordenação Estadual de Quilombos Zacimba Gaba / ES
  48. Coordenação Nacional das Comunidades Quilombolas – CONAQ
  49. Coordenação Nacional de Entidades Negras – CONEN
  50. E’léékò: Gênero e Cidadania / RJ
  51. Federação Árabe Palestina do Brasil – FEPAL
  52. Federação das Associações Comunitárias e Entidades do Estado de São Paulo – FACESP
  53. Federação das Favelas do Estado do Rio de Janeiro – FAFERJ
  54. Federação Nacional das Associações de Pessoas com Doença Falciforme – FENAFAL
  55. Diretoria Racial da Federação Nacional dos Trabalhadores de Metrôs e Metrô Ferroviário – FENAMETRO
  56. Fórum de Entidades Negras do Maranhão
  57. Fórum de Juventude Negra do Amazonas
  58. Fórum de Matriz Africana do Município de Cariacica / ES
  59. Fórum Mineiro de Entidades Negras – FOMENE
  60. Fórum Nacional de Juventude Negra – FONAJU
  61. Fórum Nacional de Mulheres Negras – FNMN
  62. Fórum Permanente Afrodescendente do Amazonas – FOPAAM
  63. Fórum Sergipano das Religiões de Matriz Africana
  64. GERA – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Formação de Professores da UFPA
  65. Grêmio Recreativo Escola de Samba Ipixuna do Amazonas
  66. Grupo de Cultura Afro AFOXÁ / PI
  67. Grupo Cultural Adimó / PI
  68. Grupo de Estudos Afro-Amazônico (NEAB) UFPA
  69. Grupo de Estudos Afro-Brasileiros e Educação – GEABE/FATEC / RJ
  70. Grupo de Estudos e Pesquisas em políticas públicas, história e educação das relações raciais e de gênero da UNB
  71. Grupo Mais Mulheres no Poder / MG
  72. Ile Axé Elegbara Barakitundegy Bamine
  73. Ilê Axé Olorum Funmi / SC
  74. Ile Jena Delewa – BA
  75. Ile Ofá Odé – BA
  76. Ilu Oba De Min Educação, Cultura e Arte Negra /SP
  77. Instituto AMMA Psique e Negritude / SP
  78. Instituto Brasileiro da Diversidade – IBD
  79. Instituto Cultural Afro Mutalembê – Amazonas
  80. Instituto Centro Educacional e Cultura Nina Souza – CENS / AP
  81. Instituto Ganga Zumba
  82. Instituto Luiz Gama / SP
  83. Instituto Mocambo /AP
  84. Instituto Nangetu de Tradição Afro-religiosa e Desenvolvimento Social de Belém
  85. Instituto Padre Batista / SP
  86. Instituto Palmares de Promoção da Igualdade / BA
  87. Instituto Pérola Negra do Rio de Janeiro
  88. Instituto Pretos Novos / RJ
  89. Irmandade Santa Bárbara / SE
  90. Kwè Cejá Gbé / RJ
  91. Liga Brasileira de Lésbicas
  92. Liga Nacional Panela de Expressão – ES
  93. Liga Oficial dos Blocos Afros e Escolas de Samba de Sergipe
  94. Marcha Mundial de Mulheres
  95. Movimento Internacional da Paz – MINPA
  96. Movimento de Luta por Terra – MLT
  97. Movimento Negro Unificado – MNU
  98. Movimento Sem Terra – MST
  99. Nação Hip Hop Brasil
  100. N`Ativa / AC
  101. Núcleo de Debates de Diversidades e Identidades de MG
  102. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros do CEFET – RJ
  103. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros do Colégio Pedro II
  104. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da FURB
  105. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da FURG
  106. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da IFPA
  107. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros NEAF – UFT
  108. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UDESC
  109. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UEL
  110. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UEMG
  111. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros UFMA
  112. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFOP
  113. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFPI
  114. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFRPE
  115. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFSB
  116. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFTO
  117. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFPR
  118. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UNB
  119. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UNICENTRO
  120. Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas: NEABI – UFPB
  121. Núcleo de Estudos Sobre Educação, Gênero, Raça e Alteridade  (NEGRA) da UNEMAT
  122. Núcleo Vida e Cuidado (NUVIC): estudos sobre violência
  123. Observatório da Mulher
  124. Observatório da Políticas de Democratização de Acesso e Permanência na Educação Superior da UFRRJ
  125. Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata / RJ
  126. Organização de Economia Solidária – OPES
  127. Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP
  128. Quilombação – Coletivo de Ativistas Antirracistas / SP
  129. Rede Nacional Afro LGBT
  130. Rede Amazônia Negra – RAN
  131. Rede Amazônica de Tradições de Matriz Africana – REATA
  132. Rede Aruanda Mundi
  133. Rede de Jovens do Nordeste – RJNE
  134. Rede Mulher e Mídia
  135. Rede Nacional Lai Lai Apejo – Saúde da População Negra e AIDS
  136. Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde – RENAFRO
  137. Rede Nacional das Religiões de Matriz Africana – Núcleo Sergipe
  138. Rede Sapatá – Promoção de Saúde e Controle Social de Políticas Públicas para Lésbicas e Bissexuais Negras
  139. Secretaria Nacional de Combate ao Racismo da CUT – SNCR/CUT
  140. Secretaria Nacional de Igualdade Racial da CTB
  141. Secretaria Nacional de Mulheres da CTB
  142. Setorial de Combate ao Racismo da Central de Movimentos Populares – CMP
  143. Sindicato dos Trabalhadores dos Correios da Grande São Paulo, Sorocaba e Região – SINTECT/SP
  144. União Brasileira de Estudantes Secundaristas – UBES
  145. União Brasileira de Mulheres – UBM
  146. União das Comunidades Tradicionais Afro-amazônicas – UNIMAZ
  147. União das Escolas de Asmba Paulistana – UESP
  148. União de Mulheres de São Paulo
  149. União Municipal  dos Estudantes Secundaristas de Santos – UMES Santos
  150. União Nacional dos Estudantes – UNE
  151. União de Negros Pela Igualdade – UNEGRO
  152. Visão Mundial
  153. Yle Ase Obe Fara BARAHUMERJIONAN / SE

Personalidades

  1. Dexter (Marcos Fernandes de Omena) – Rapper
  2. GOG (Genival Oliveira Gonçalves) – Rapper e poeta
  3. Hélio Santos – Professor universitário ((Visconde de Cairu – Salvador)
  4. Leci Brandão – Deputada Estadual e cantora
  5. Valter Silvério – Professor universitário (UFSCAR)

http://www.portalafricas.com.br/v1/reforma-ministerial-e-seppir-movimentos-sociais-enviam-manifesto-a-presidente-dilma/

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Joel Rufino

Por Heloisa Pires Lima[1]

Sempre me impressionou a posição do escritor Joel Rufino no cenário literário nacional. Sobretudo, o voltado para o leitor criança e adolescente. Sua biobliografia instiga por expor a exceção num país onde a cor do sujeito se relaciona com tantos impedimentos para o acesso à produção de livros.  Revisitada, para essa faixa etária, eu o encontro em destaque na coleção Recreio nos idos dos anos 1970. Os semanais com atividades interativas eram avançados para a época e tinham a coordenação de Ruth Rocha que o convidou. Ele também tomou parte da célebre e muito bem avaliada coleção Taba, publicada a partir de 1982 pela mesma editora, a Abril Cultural. Os fascículos ilustrados reuniam textos e discos num mesmo material. O circuito abarcava, entre outros, nomes como o de Sylvia Orthof, Maria Clara Machado,Ilo Krugli, Ana Maria Machado. O volume de lançamento é assinado por Joel Rufino tendo por parceiro musical, Gilberto Gil a que se seguiram, Caetano, Secos e Molhados, Nara Leão, etc. Enfim, uma geração poderosa.

No âmbito do reconhecimento pela critica literária o escritor foi capaz de façanhas como a de ser premiado com o Jabuti, em 1991 e 1992 além de ser a indicação brasileira ao troféu Hans Christian Andersen o mais importante prêmio internacional de literatura infantojuvenil o que se deu em 2002 sendo também um dos quatro finalistas em 2004.

O espaço das letras nunca esteve imune à crueldade que impacta a vida dos afro descendentes, a maioria no país e a minoria nas prateleiras. Um instante da lucidez de Joel Rufino sobre a questão está no prefácio da obra –A mão Afro Brasileira [2]– publicada nos cem anos da abolição no Brasil É lá que ele discorre acerca do pacto estabelecido na sociedade brasileira de negar a face negra, uma espécie de recalcamento que distorce o protagonismo dessa presença. No argumento, ele retoma o episódio oitocentista dos protestos de Nabuco por chamaram Machado de Assis de mulato genial. Para Joel, era o mesmo que dizer: “Se o maior escritor da língua é um negro, não há literatura”- Esta lógica do passado é uma das camadas culturais assentada no imaginário ainda no presente. Quem não observa o esforço de certos circuitos editoriais para retirar de Machado de Assis o título maior dentre os escritores brasileiros?

Mas, o foco na história dos livros infantojuvenis, demonstra ser Joel Rufino o autor negro que alcançou os mais altos escalões de reconhecimento. Fez, assim, a diferença como espelho para as gerações que entraram em contato com os livros dele. Primeiramente, porque muitos dos títulos de sua autoria ofertam o modelo de humanidade negra para o leitor em formação. Principalmente se observarmos o aspecto quantitativo do contexto do século XX. Basta comparar os personagens associados à procedência branca-européia com a negro-africana no exercício de considerar as origens continentais presentes nas bibliotecas.

Joel Rufino amplia os limites, garante o ponto de vista na abordagem dos temas. A abordagem por ele proferida inflou de densidade os habitantes de suas narrativas. Seus textos foram, tantas vezes, pontes para conversas com crianças ao meu redor, de filho a alunos de sala de aula. O escritor tornava a biblioteca mais democrática e mostrava o ângulo de uma existência negra como espelho de identidades sociais dentro e de fora das páginas.

A propriedade literária no setor ressoa um protagonismo de primeira ordem. Mas falta ainda, uma última atenção. A jornada de Joel Rufino é também um binóculo para fazer notar as tentativas do autor de ultrapassar temáticas tão somente vinculadas à identidade negra. Sem perder de vista a complexidade humana como presente da vida, o autor recupera a procedência negro-africana como uma presença particular. Ele a torna visível, mas jamais restrita como assunto. Ele foi sábio em escapar das normas e das expectativas impostas aos autores negros.

Esta e outras rufinadas de Joel me impressionam. Seu protagonismo segue articulado a boas histórias, aquelas cheia de contradições, impactantes em alguns momentos, pueris em outros tantos.

E, nesse momento em que ele completa a história mais verídica e já conhece aquela que mais desperta a curiosidade de todos, Joel Rufino também entrega a chave para posicioná-lo em nossas memórias. O protagonismo negro conduzido por ele em camadas literárias tem algo a ensinar. Para mim, a gratidão está na jornada que abriu caminhos para literatos negros e o campo de reflexão e prática que surge nessa fonte. Para a sociedade, a análise das narrativas por ele arquitetadas, a demanda para produzir reedições, explorar o acervo vivo ou ainda por nascer, a pesquisa dos contextos com os quais ele dialogou, as respostas que deu aos dilemas de sua geração e muitos outros aspectos embutidas na produtividade visível levam a perguntar, qual será o próximo enredo para o encontrar?

[1]Antropóloga, autora de obras infantojuvenís, entre outras, Histórias da Preta [Prêmio José Cabassa e Adolfo Aizen da União Brasileira dos Escritores (1999)], e O marimbondo do quilombo- indicado ao Prêmio Jabuti 2011.

[2] Emanoel Araujo (org)- A mão afrobrasileira. SP: Tenenge, 1988

CartazNos últimos dias de 1999, após alguns tiros terem sido disparados em um supermercado francês, Dramane (Abderrahmane Sissako) escreve uma carta para seu pai, que mora em Mali, sua terra natal. Quando viaja de volta para casa ele conhece uma bela jovem, que o faz considerar outros caminhos a seguir. Mas após a passagem de ano nada parece ter mudado na vila, contrastando as dificuldades do local com a modernidade européia.

A vida sobre a terra (La vie sur terre) é um drama dirigido por Abderrahmane Sissako  com 61 minutos de duração. Sissako  é um diretor de cinema, escritor e produtor mauritano, sendo considerado o cineasta mais ativo da África. Nascido em 1961 em Kiffa, emigrou com a família para o Mali, país de seu pai. Estudou cinema em Moscou nos anos 1980. ganhador de diversos prêmios, como Un certain Regard no Festival de Cannes em 1993. Dirigiu também os curtas-metragem Le Chameau et les bâtons flottants (1995) Sabriya (1996). “En attendant le bonheur” e Un Certain Regard e  Bamako foram apresentados no Festival de Cannes no ano 2000 e em 2006, respectivamente.

Serviço:

19/setembro/2015 – 17 horas A Vida Sobre a Terra (La Vie Sur Terre). Direção: Abderrahmane Sissako – 1998, drama, 61 minutos.

Local: PUC CONSOLAÇÃO Rua Marquês de Paranaguá, 111 – sala 20. Travessa Rua da Consolação, próximo ao Mackenzie. Entre metrô República e Paulista.

Entrada franca.

Pede-se a colaboração voluntária de 1 quilo de alimento não perecível ou roupas, calçados, cadernos, livros, jornais, revistas, material de higiene e limpeza. Serão doados ao Arsenal Esperança/Missão Paz, que atende diariamente centenas de estrangeiros, inclusive africanos.

Coordenação: Saddo Ag Almoloud, Vanderli Salatiel e Oubí Inaê Kibuko.

A imprensa negra no Estado de São Paulo é representada na nova exposição da Casa de Dona Yayá, que reúne fotos, recortes, clichês e outros registros dos principais periódicos paulistas. Nesses documentos, os enfrentamentos cotidianos em defesa da cidadania negra e suas formas de resistência coletiva aparecem entrecortados pelas energias utópicas da modernidade e promessas de igualdade e justiça social.

Os jornais eram editados principalmente na capital paulista e em Campinas, onde o ativismo negro se tornou mais expressivo. A exposição integra programação do simpósio Negros nas cidades brasileiras, que inclui também o lançamento do Portal USP da Imprensa Negra Paulista. Você pode visitar a exposição de segunda a sexta-feira, das 9 às 17 horas; domingo, das 10h às 15h na Rua Major Diogo, 353, Bela Vista, São Paulo. A entrada é franca e vai até 11 de outubro.

Foto: Cecília Bastos

Foto: Cecília Bastos

Ana Barone, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, e uma das coordenadoras do projeto, disse ao site da Casa Dona Yayá, que o público que for visitar a exposição Imprensa Negra Paulista terá uma oportunidade de conhecer mais e refletir sobre a vida de um povo que sempre procurou defender seus interesses coletivos mesmo em um período em que o Estado não garantia uma equalização de condições para esse grupo da população. Para a comunidade acadêmica, a mostra e o site do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, onde se encontra disponível a coleção da Imprensa Negra, servirão de fontes documentais e de informação sobre as relações raciais no Brasil. Saiba mais sobre o site com os jornais digitalizados aqui.

Serviço:

Exposição ‘Imprensa Negra Paulista’ 

De segunda a sexta-feira, das 9 às 17 horas, e domingo, das 10 às 15 horas. Entrada franca.

O Centro de Preservação Cultural – Casa de Dona Yayá fica na Rua Major Diogo, 353, Bela Vista, São Paulo.

Mais informações: (11) 3106-3562, email anabarone@gmail.com, cpcpublic@usp.br, ou no site do IEB

Por: Midiato

A pesquisadora Rosane Borges, professora da Universidade Estadual de Londrina e pesquisadora do MidiAto, condunzirá o seminário “Políticas de representação e imaginário: imagens de mulheres negras na mídia” no grupo de estudo em “Direito, Estado e racismo”,  da Faculdade de Direito do Mackenzie.

A apresentação vai analisar “os discursos, plasmados como imagem, em torno da mulher negra brasileira, veiculados em em alguns dispositivos midiáticos, tais como cinema, televisão, internet e suportes impressos”. Segundo a professora, “novos regimes de visibilidade emergem, tornando possível a projeção imagética de mulheres negras de maneira plural e não apenas vinculada a estereótipos negativos e a estigmas, como a boa tradição das corriqueiras representações visuais se encarregou de decantar. Estaríamos, portanto, assistindo a um estágio no campo das representações que gradualmente iria de uma escala negativa para uma positiva, em que homens e mulheres negros passam a ser retratados de maneira multiperspectívica”.

O seminário pretende levantar algumas discussões: até que ponto os novos signos que gravitam em torno das mulheres negras são capazes de instituir uma outra ordem de sentidos sobre elas? Em que medida tais alterações imagéticas, anunciadas, às vezes, de modo festivo, constituem, efetivamente, mudanças capazes de redesenhar o quadro imaginário de onde se pinta as representações sociais e, portanto, de onde emergem os ideais culturais?

O evento ocorre neste sábado (dia 5), a partir das 9h30, na Universidade Mackenzie, na Faculdade de Direito, em São Paulo.