Arquivo da categoria ‘Artigos’

Joel Rufino

Por Heloisa Pires Lima[1]

Sempre me impressionou a posição do escritor Joel Rufino no cenário literário nacional. Sobretudo, o voltado para o leitor criança e adolescente. Sua biobliografia instiga por expor a exceção num país onde a cor do sujeito se relaciona com tantos impedimentos para o acesso à produção de livros.  Revisitada, para essa faixa etária, eu o encontro em destaque na coleção Recreio nos idos dos anos 1970. Os semanais com atividades interativas eram avançados para a época e tinham a coordenação de Ruth Rocha que o convidou. Ele também tomou parte da célebre e muito bem avaliada coleção Taba, publicada a partir de 1982 pela mesma editora, a Abril Cultural. Os fascículos ilustrados reuniam textos e discos num mesmo material. O circuito abarcava, entre outros, nomes como o de Sylvia Orthof, Maria Clara Machado,Ilo Krugli, Ana Maria Machado. O volume de lançamento é assinado por Joel Rufino tendo por parceiro musical, Gilberto Gil a que se seguiram, Caetano, Secos e Molhados, Nara Leão, etc. Enfim, uma geração poderosa.

No âmbito do reconhecimento pela critica literária o escritor foi capaz de façanhas como a de ser premiado com o Jabuti, em 1991 e 1992 além de ser a indicação brasileira ao troféu Hans Christian Andersen o mais importante prêmio internacional de literatura infantojuvenil o que se deu em 2002 sendo também um dos quatro finalistas em 2004.

O espaço das letras nunca esteve imune à crueldade que impacta a vida dos afro descendentes, a maioria no país e a minoria nas prateleiras. Um instante da lucidez de Joel Rufino sobre a questão está no prefácio da obra –A mão Afro Brasileira [2]– publicada nos cem anos da abolição no Brasil É lá que ele discorre acerca do pacto estabelecido na sociedade brasileira de negar a face negra, uma espécie de recalcamento que distorce o protagonismo dessa presença. No argumento, ele retoma o episódio oitocentista dos protestos de Nabuco por chamaram Machado de Assis de mulato genial. Para Joel, era o mesmo que dizer: “Se o maior escritor da língua é um negro, não há literatura”- Esta lógica do passado é uma das camadas culturais assentada no imaginário ainda no presente. Quem não observa o esforço de certos circuitos editoriais para retirar de Machado de Assis o título maior dentre os escritores brasileiros?

Mas, o foco na história dos livros infantojuvenis, demonstra ser Joel Rufino o autor negro que alcançou os mais altos escalões de reconhecimento. Fez, assim, a diferença como espelho para as gerações que entraram em contato com os livros dele. Primeiramente, porque muitos dos títulos de sua autoria ofertam o modelo de humanidade negra para o leitor em formação. Principalmente se observarmos o aspecto quantitativo do contexto do século XX. Basta comparar os personagens associados à procedência branca-européia com a negro-africana no exercício de considerar as origens continentais presentes nas bibliotecas.

Joel Rufino amplia os limites, garante o ponto de vista na abordagem dos temas. A abordagem por ele proferida inflou de densidade os habitantes de suas narrativas. Seus textos foram, tantas vezes, pontes para conversas com crianças ao meu redor, de filho a alunos de sala de aula. O escritor tornava a biblioteca mais democrática e mostrava o ângulo de uma existência negra como espelho de identidades sociais dentro e de fora das páginas.

A propriedade literária no setor ressoa um protagonismo de primeira ordem. Mas falta ainda, uma última atenção. A jornada de Joel Rufino é também um binóculo para fazer notar as tentativas do autor de ultrapassar temáticas tão somente vinculadas à identidade negra. Sem perder de vista a complexidade humana como presente da vida, o autor recupera a procedência negro-africana como uma presença particular. Ele a torna visível, mas jamais restrita como assunto. Ele foi sábio em escapar das normas e das expectativas impostas aos autores negros.

Esta e outras rufinadas de Joel me impressionam. Seu protagonismo segue articulado a boas histórias, aquelas cheia de contradições, impactantes em alguns momentos, pueris em outros tantos.

E, nesse momento em que ele completa a história mais verídica e já conhece aquela que mais desperta a curiosidade de todos, Joel Rufino também entrega a chave para posicioná-lo em nossas memórias. O protagonismo negro conduzido por ele em camadas literárias tem algo a ensinar. Para mim, a gratidão está na jornada que abriu caminhos para literatos negros e o campo de reflexão e prática que surge nessa fonte. Para a sociedade, a análise das narrativas por ele arquitetadas, a demanda para produzir reedições, explorar o acervo vivo ou ainda por nascer, a pesquisa dos contextos com os quais ele dialogou, as respostas que deu aos dilemas de sua geração e muitos outros aspectos embutidas na produtividade visível levam a perguntar, qual será o próximo enredo para o encontrar?

[1]Antropóloga, autora de obras infantojuvenís, entre outras, Histórias da Preta [Prêmio José Cabassa e Adolfo Aizen da União Brasileira dos Escritores (1999)], e O marimbondo do quilombo- indicado ao Prêmio Jabuti 2011.

[2] Emanoel Araujo (org)- A mão afrobrasileira. SP: Tenenge, 1988

Anúncios